É tempo de a Europa se assumir

Os meses de julho e agosto de 2025 podem vir a transformar-se numa referência na História, já longa, da construção da União Europeia. Dois meses em que uma sucessão de acontecimentos de expressão global abalou profundamente a credibilidade interna e externa de um projeto económico e político de integração e, sobretudo, de criação de uma identidade comum, capaz de gerar dinâmicas internas de agregação e de se afirmar como referência credível, no plano geopolítico e geoestratégico global.

Já aqui criticámos a postura de submissão da Europa na cimeira sobre tarifas, realizada com os Estados Unidos, no final de julho, em Glasgow. Esta postura voltou a manifestar-se, em agosto, na sequência da cimeira americana-russa de Anchorage sobre a guerra da Ucrânia. Neste caso, a humilhação atingiu o paradoxo, com a ida de um grupo de dirigentes europeus a Washington, a acompanhar a presidente da Comissão Europeia, sujeitando-se a desconsiderações protocolares e assumindo a contrario a fraqueza da Europa, enquanto ator de primeiro plano, não obstante a retórica de firmeza utilizada.

A estas manifestações de perda de influência política e estratégica da Europa, junta-se a crise económica que ameaça acentuar-se. No epicentro deste processo encontra-se a Alemanha que, após alguns sinais de recuperação no primeiro trimestre deste ano, em grande parte resultado da antecipação de encomendas americanas decorrente da ameaça de tarifas, voltou a terreno negativo no segundo trimestre, antecipando-se um agravamento no terceiro.

A agravar a situação, a perspetiva de desequilíbrios orçamentais nos próximos anos, para fazer face às necessidades de expansão da despesa com defesa e segurança, mas sobretudo para responder às necessidades de reestruturação económica e de modernização de infraestruturas. Acresce a crise orçamental em França, que não cessa de se desenvolver, ameaçando degenerar numa nova crise política de consequências imprevisíveis.

A tornar mais complexo todo este cenário, a emergência de divergências claras entre uma França, saudosa da sua influência global, e uma Alemanha cada vez mais virada para si própria e para o reforço da sua influência continental.

Talvez seja o tempo certo de a Europa contrariar a postura seguidista e de subalternidade a que se tem acomodado, e assumir uma postura de afirmação que já foi sua e que, com todas as contradições, não deixou de constituir referência de inovação económica, social e política, que teve uma expressão maior na criação do sistema institucional das Nações Unidas. Um sistema que hoje está inoperante e moribundo, em grande parte em resultado da sua própria inação e abdicação do seu papel, como potência de influência global.

Neste processo de afirmação europeia é importante que Portugal e os chamados países do Sul assumam uma postura de vanguarda, contribuindo para a criação de uma identidade europeia que ultrapasse a visão dominante e redutora de Europa Continental e assuma uma nova visão de Europa Global, aberta ao mundo – de que Portugal foi pioneiro e primeiro arquiteto –, onde possa afirmar um papel de primeiro plano, contribuindo para a reconstrução de uma nova ordem internacional que recupere uma perspetiva de cooperação, de promoção do desenvolvimento e da redução do confronto.

O sistema de Bretton Woods, criado na sequência da segunda guerra mundial, foi uma demonstração de que é possível construir em conjunto, regras e instituições internacionais que garantam e promovam a paz, a democracia e o desenvolvimento económico. É tempo de pensarmos numa nova iniciativa do género e que essa iniciativa possa ter lugar na Europa. Talvez em Lisboa, onde começou a globalização moderna.