Estamos a perder a internet para o ódio

Recentemente, foi divulgada a notícia de que fotografias de mulheres publicadas na Vinted, um site de compra e venda de roupa em segunda mão, tinham sido utilizadas, sem consentimento, em sites de conteúdos pornográficos. Outras notícias referem um grupo italiano no Facebook com cerca de 30 mil utilizadores que terá sido encerrado por partilha de imagens íntimas de mulheres.

Ambas as notícias vêm na sequência de muitas outras que expõem um crescimento preocupante na internet da apropriação de imagens de mulheres para conteúdos sexualmente explícitos. Já não falamos de pequenos grupos na dark web de difícil acesso, mas sim de grupos que envolvem milhares de homens.

Quem não se lembra dos horrores da revelação do caso de Gisèle Pelicot na cidade francesa de Mazin, em que grupos online combinavam violações em massa?

O movimento “red pill”, constituído por grupos organizados de homens dominados pela misoginia e uma visão do mundo hostil ao feminismo e à igualdade de género, continua a encarar a mulher como uma ameaça. A verdade é que ainda não sabemos como lidar com o crescimento deste tipo de movimentos, nem como travar a violência crescente.

Séries de televisão como “Adolescence” mostraram o impacto devastador nas famílias e comunidades de jovens expostos a estas culturas, ao ponto de cometerem feminicídios.

O que tem levado milhares de homens nos últimos anos a promoverem de forma abjeta partilhas não-consentidas de fotos e vídeos, e a assediarem mulheres no mundo digital, tornando-as alvo de violência? Estamos a perder a internet para a propaganda e desinformação, mas sobretudo para o ódio, o que tem provocado sérios retrocessos sociais.

Consigo imaginar que haverá um momento em que as pessoas terão de tomar a decisão de abandonar a parte social da internet.

No outro dia, li uma notícia que referia que uma parte da geração Z está a abandonar as redes e a tentar recuperar hábitos sociais pré-internet. Já não é inverosímil que, um dia, muitos de nós iremos escolher interações online cada vez mais limitadas para bem da nossa saúde mental, deixando de publicar fotografias ou de partilhar a nossa localização.

Acabaram os espaços seguros na internet. Talvez nunca tenham existido na realidade, mas hoje as evidências apontam para a necessidade de repensarmos radicalmente a nossa presença online, para nos protegermos destas novas realidades, mais perigosas e violentas, e que não irão desaparecer tão cedo.